O meu Cajueiro...

Um dos livros que comprei dia desses, A riqueza do mundo de Lya Luft, estava esperando o momento de ser lido. Fui apanhá-lo. Percebi que guardei junto com um outro que trouxe da casa de minha mãe dia desses, para restaurar e  deliciar-me com as lembranças...

Começo a viajar por suas páginas...

Deparo-me com um texto que hoje, passa a ter um significado totalmente diferente de quando tinha os meus 10 anos, quando era esse o meu livro escolar...

O meu Cajueiro  (Humberto de Campos) 
Aos treze anos de minha idade e três da sua, separamo-nos, o meu cajueiro e eu. Embarco para o Maranhão, e ele fica.
Na hora, porém, de deixar a casa, vou levar-lhe o meu adeus. Abraçando-me ao seu tronco, aperto-o de encontro ao meu peito. A resina transparente e cheirosa corre-lhe do caule ferido. Na ponta dos ramos mais altos abotoam os primeiros cachos de flores miúdas e arroxeadas como, pequeninas unhas de crianças com frio.
- Adeus , meu cajueiro! Até a volta!
Ele não diz nada, e eu me vou embora.
Da esquina da rua, olho ainda, por cima da cerca, a sua folha mais alta, pequenino lenço verde agitado em despedida.
Estou em São Luís, homem-menino, lutando pela vida, enrijando o corpo no trabalho bruto e fortalecendo a alma no sofrimento, quando recebo uma comprida lata de folha acompanhando uma carta de minha mãe:
"Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças".
Recebendo a carta de minha mãe, choro sozinho. Choro, pela delicadeza da sua ideia. E choro, sobretudo, com inveja do meu cajueiro. Por que não tivera eu, também, raízes como ele, para me não afastar nunca, jamais, do quintal em que havíamos crescido juntos, da terra em que eu, ignorando que o era, havia sido feliz? 


Naquele tempo li e interpretei ao pé da letra... Agora, como a minha visão mudou! Sinto que esse cajueiro pode simbolizar os princípios éticos, formação religiosa, grupo familiar, educação formal, sonhos... A "terra" do coração!
Aos poucos vai acabando a pureza... Passa-se a ter fins e não princípios... A felicidade tende a escorrer entre os dedos... O peito começa a doer, já que o coração perde a maciez.
Como é bom poder reler esse texto, saber que continua sendo importante para mim e que ainda posso tirar proveito dele.
Meu livro "Programa de Admissão", tão velhinho... Tão atual! Acho melhor voltar aos meus estudos... Ainda deve haver tempo para o aprendizado. Espero não ser necessário buscar em algum lugar por aí, minha cartilha e recomeçar do bê-a-bá...


A riqueza do mundo de Lya Luft, comento em outro momento...

17 comentários:

LaReK postou o comentário número:

Adorei, Rê! Me deu vontade de pegar meus antigos livros, de quando era criança, para reler...

Beijinhos!

Nile e Richard postou o comentário número:

Oi Renata.
Que bom que gostou de reler a sua velha admissão.
A terra do coração,como voce vê atualmente é um lindo texto.
Boa semaninha para voce.
bjtos.Nile.

casa de professora postou o comentário número:

AMEI O TEXTO, TB ADORO LER, EMBORA EU ESTEJA SEM TEMPO NA CORRERIA DE CUIDAR DA CASA E DA MINHA MÃE, MAS ESPERO EM BREVE VOLTAR A LER, ESCREVER E ESUDAR PARA O MESTRADO, QUE AINDA PRETENDO FAZER,OBRIGADA POR TANTAS COISAS BOAS QUE VC MOSTRA NO SEU BLOG, BJS!

Juliana postou o comentário número:

Eu adoro a Lia Luft! Ficarei ansiosa pelo post!
Beijos,
www.mentevaziaeoficinade.blogspot.com

Leninha postou o comentário número:

Oi Renata querida,estou aqui meditando sobre as coincidências,vendo seu livro do Admissão e me lembrando de um lugar no passado,onde também estudei em um livro parecido,mas são vinte anos de diferença!!!Meu livro desapareceu devido às constantes mudanças mas a lembrança ainda vive...tive outro livro que me marcou muito"Antologia da lingua portuguesa"e,neste,o que mais me atraia era:"A ÚLTIMA CORRIDA DE TOUROS DE SALVATERRA".Qualquer dia destes farei uma postagem sobre esta crônica...
Também amo Lya Luft.Bjsssss,Leninha.

Ana de Geo postou o comentário número:

Oi, Guidinha!
Maravilhosa leitura! Acho que o hábito de ler deveria começar desde pequenininho, porque eu tive uma infância cercada por livros e hoje não consigo me desgrudar deles, sempre leio um ou dois por mês, mesmo com pouco tempo. Ultimamente, contudo, estou decepcionada com alguns que andei lendo, como estão defasados e repetitivos! Com pouca narrativa, o último que li, que foi presente do dia das mães, "A Garota da Capa Vermelha", me deixou triste, a história é boa, a idéia é bem rica, mas a narração deixou muito a desejar, sei que a jornalista contratada para por a idéia no papel foi para o meio da locação para assistir as cenas do filme para se inspirar e escrever, mas ela escreveu com a mesma velocidade do filme, o que torna difícil para o leitor, pois de uma cena para outra ela não procurou ilustrar com riquesa de detalhes, não buscou criar um melhor ambiente, apenas mudava a cena e ela ia escrevendo, eu fiquei muito perdida, muito perdida... precisei fazer muito esforço para visualizar a cena enquanto lia, cheguei à uma conclusão: estou ficando velha, não consigo mais me entregar aos livros como antes. Pena.
Mas não vou desistir.
Um grande beijo.

Lúcia Bezerra de Paiva postou o comentário número:

Guidinha, estudei no Programa de Admissão mas
em edição bem mais antiga que a sua. Também estudei na Crestomatia, com textos maravilhosos.
Eram livros que permaneciam por muitas gerações, diferente de hoje.Esse texto, de Humberto de Campos, é comovente, realmente repleto de valores. Linda postagem!
Agora, vou ler o último post, sua produção está
rica de bons "produtos", boa em qualidade e quantidade...haja disposição, menina linda!
Beijinhos

Anônimo postou o comentário número:

Que leitura maravilhosa, lembrei minha infância e do primário. saudades. 21 de outubro de 2011.

Anônimo postou o comentário número:

Que saudade da minha infância. Essa história sempre me acompanhou. Achá-la aqui foi como voltar a sala de aula, nos primeiros anos de vida escolar. Chorei viu, não deu pra conter as lagrimas de saudade desse tempinhop bom...Eu era feliz e sabia..abço garota!

Cely Arena postou o comentário número:

Renata, também estudei por esse livro, aqui em São Paulo, e não o tenho mais...
Será que algum dia você encontra nela e posta no "blog" a história de um boi (como era mesmo?) e a história em que aparece a expressão "ricamente ajaezado" (que nunca esqueci, nessas décadas e décadas de vida...)?
Abraços e obrigada pela história do cajueiro!
Cely

Engº José Vilmar postou o comentário número:

Sr[a/ta], Adorei a publicação vou publicar também no meu BLOG embora seja eu de formação da área ELETROMECANICA me rendo a pureza que expressa esse texto, li e reli esse texto no meu tempo de admissão. Parabèns. http://www.engjosevilmar.blogspot.com.br

João Victor Maia postou o comentário número:

Por muito tempo procurei por esse texto, pois o mesmo fez parte da minha infância. talvez pelo fato de recordar as brincadeiras junto aos meus irmãos à sombra de cajueiros onde nasci.
Amei encontra-lo após tantos anos. ass: Lucieline Maia -Aracati-CE

Anônimo postou o comentário número:

Eu tinha um desses livros, o Programa de Admissão, mas como era muito velho acabei ficando sem ele. Gostaria de saber se você pode mim informar onde consegui outro.
xenofantegomes@bol.com.br

Anônimo postou o comentário número:

O homem "Humberto de Campos" já morreu ! mas o velho cajueiro continua a desafiar o tempo.Agora cercado de muros e correntes foi imortalizado pelo poeta parnaibano no texto citado acima. Sempre quando vou a cidade de Parnaiba-PI passo pelo velho cajueiro e o observo. Ele continua Sozinho,solitário,parece esperar pelo menino que virou homem e nunca mais voltou.
Professor João Passos.
E-mail: joaopassos.cocal@hotmail.com

Anônimo postou o comentário número:

Saudades e lembranças muito boas da infância. De um Livro de Admissão, que nem era meu mas que eu devorava. Amamos "O meu cajueiro" e vez ou outra, eu e meus irmãos lembramos dele. Empacamos sempre no final por não lembramos de algumas palavras. Isso não acontecerá mais.
Lembro também de um texto do mesmo livro que falava de um menino que levava para alguém uma "grande rosa cor de rosa, daquelas que só medram em jardins de gente rica"
Você tem esse? Beijos

Nilva postou o comentário número:

Saudade, saudade é o que estou sentindo agora, ainda com os olhos marejados de lágrimas. Faz exatamente 45 anos que li esse texto. Nunca o esqueci e hoje me veio forte a lembrança de um tempo que há muito passou... Saudade do meu livro de Admissão, que por infelicidade não o tenho mais.

Nilva postou o comentário número:

Obrigada Renata, por tão maravilhosa postagem. Voltar a ler esse texto, O meu cajueiro, me transportei para um tempo muito distante e feliz.

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