Ritos de passagem...


Fico tentando explicar para pessoas mais novas várias diferenças que separam nossas gerações, porém é algo muito difícil. Algumas coisas só podem ser entendidas por quem viveu. Para os demais fica apenas como algo que existiu historicamente.
Em algumas situações os meus cinquenta anos fazem-me uma espécie de  indivíduo que viveu na linha limítrofe da existência e morte dos ritos de passagem. Sim, os ritos de passagem para as gerações mais novas é algo que já não acontece. Refiro-me a pequenos detalhes que vivíamos em nossa trajetória a cada nova idade completada. Esses detalhes não são percebidos mais, já que tudo virou uma grande salada na vida de cada um. Não se separam os momentos evolutivos... Vive-se tudo em qualquer idade.

O que me separa das novas gerações é exatamente aquilo que foi roubado delas, ou seja, os tais ritos de passagem. O prazer da descoberta, o cheiro de manacá...

Serviram em minha vida como ritos de passagem:

 * Ser primeira filha, nascer de cesárea deixando na barriga da mãe uma grande cicatriz vertical - coisa raríssima hoje em dia.  Já nasci arrumando confusão...

 * Tomar vacina contra varíola no alto da coxa. A enfermeira achou melhor que no braço, já que nunca iria ficar a mostra (ainda bem que a marca sumiu...). Ter sarampo  e catapora.

 * Fazer fila na escola e cantar os hinos pátrios com as letras trocadas como, por exemplo, substituindo o  " Já podeis, da Pátria filhos/Ver contente a mãe gentil..."   por  " japonês tem quatro filhos..."   - Os que ainda eram pequenos cantavam  certinho, já os mais "adiantados"...

 * Usar a esferográfica pela primeira vez na escola com autorização dos professores, deixando o lápis apenas para as respostas.

 * Ter merendeira de plástico rosa com garrafinha (que não era térmica).

 * Ficar feliz em comprar mariola, pirulito, embaré, drops dulcora, bala de boneco, chupetinha de açúcar, doce de abóbora em formato de coração na cantina do grupo escolar.

 * Achar o carnaval maravilhoso só por poder nos bailes infantis, tomar guaraná caçula e comer batatas fritas que vinham nos saquinhos.

 * Sentir-me poderosíssima fantasiada de havaiana, baiana, cigana...

 * Quase enlouquecer no dia em que minha irmã, a segunda filha, colocou no nariz uma bolinha do colar de pérolas de minha vó que arrebentou.

 * Não ter a presença de minha mãe em uma festinha em comemoração ao dia das mães na escola, pois minha irmã caçula resolveu nascer... A grande vantagem é que  nesse dia das mães ganhei uma boneca de carne e osso - a irmã/filha.

 * Sentar em carteiras escolares duplas e divertir-me ao atrapalhar o coleguinha de trás que tentava escrever, enquanto eu estava a me  balançar no acento colado em sua mesa...

 *  Andar de balanço bem alto, sentindo aquele frio na barriga.

 *  Subir no pé de jabuticaba e ser mordida por marimbondo.

 *  Rolarmos, as três irmãs, no chão lutando com o folgado do irmão que pensava ser mestre em judô.

 * Levar pontos na testa, depois de um grande tombo na casa de minha avó.

 * Ter a emoção de no curso ginasial passar a viver a responsabilidade de caminhar sozinha, sentando-me em carteiras individuais daquelas de  braço, além de trocar as pastas com o material escolar, pelas maravilhosas pranchetas e achar incrível poder sair carregando os livros pelas mãos.

 *  Colecionar figurinhas e disputá-las no bafo bafo.

 *  Fazer marimbas de palha de aço  para a noite colocar fogo e girar, girar, girar.

 *  Na casa da professora de piano levar grandes corridas de cachorro.

 *  Plantar um caroço de abacate e desenterrar todo dia para ver se já estava brotando. Esse abacateiro cresceu, deu frutos e uma das maiores dores que já senti em minha vida, foi o dia em que cheguei em casa e ele tinha sido cortado para obras de ampliação da mesma. Plantei um segundo abacateiro que acabou tendo o mesmo fim...

 *  Comemorar aniversários tendo bolos com glacê de limão e açúcar adornados com pequenos confeitos de bolinhas prateadas.

 *  Ficar com medo da mulher fantasma que arrastava correntes pelas ruas...

*  Caçar borboletas para espetar com alfinetes e colocar  no quadro da coleção (Que pecado!).

*  Catar tanajuras (para nós bituas) e encarar comer farofa feita com elas.

*  Ser o aluno do dia a copiar a matéria no caderno circular da professora.


* Ir para escola com uniforme impecável, sapatos engraxados, maria chiquinhas e laçarotes de fitas, achando que as divisas nos ombros da camisa, davam status de aluno de série adiantada...

*  Prestar exame de admissão ao ginásio em três instituições diferentes, para não arriscar a possibilidade de ficar sem escola. Passei nas três e pude escolher onde queria estudar.

*  Fazer parte da fanfarra do ginásio, tocando prato, tarol e pífaro.

*  Sofrer a dúvida cruel de que rumo seguir  - a escola Normal, o Clássico ou o Científico e quando finalmente chegou à hora, a Lei mudou tudo isso.

*  Ler fotonovelas escondido nas aulas de matemática.

*  Esperar a chegada dos encantados 15 anos, como se a verdadeira maravilha da vida começasse a partir daí.

*  Enfrentar o vestibular para música, tendo primeiro que ser aprovada na prova de aptidão, mais difícil que o próprio vestibular.

* Saudosismo? Não, apenas uma contestação de que coisas aconteciam em momentos mais ou menos pré determinados...  Tudo tinha o seu tempo, e não fiquei traumatizada pelos limites que me foram impostos.

Em meus ritos de passagem
                      Pai Francisco entrou na roda, 
                                 A capelinha era de melão,
                                 Eu sou pobre, pobre, pobre de marré de ci,  
                                 Fui ao Itororó beber água não achei.
                                 Minha machadinha quem te pois a mão sabendo que és minha?
                                 Quem roubou minha gatinha parda?
                                 Pois é, samba lele tá doente...
                                 E, se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar
                                 Juro que não atirei o pau no gato
                                 Mas ouvi dizer que São João tem uma gaita
                                 E que todo domingo havia  banda no coreto do jardim...

E foi assim que deve ter surgido o quem beijou, beijou. Quem não beijou não beija mais...





Estou muito lenta em minhas visitas aos blogues, pois como levei algum tempo sem fazê-lo, tento agora ler as postagens em atraso, já que tenho o "péssimo" hábito ler tudo o que escrevem e não apenas a última postagem, ok? Logo chego até o seu...

20 comentários:

jackie postou o comentário número:

Magnifica publicacion!!! Me encanta tu blog. me quedo para seguir conociendo mas de ti. Muchas bendiciones y gracias por compartir.

Uma parte de mim postou o comentário número:

Oii Renata! gosto muito de ler seus textos, de uma grandiosidade ímpar!
Obrigada por compartilhar essa infância simples e feliz! e que hoje não acontece mais em uma sociedade voltada ao consumismo e insatisfação!
Em muito me encontrei em seu texto e as que não me tansportei no imaginário,bjo grande!

Leninha postou o comentário número:

Renata querida,mais uma vez me peguei imaginando como é que esta diferença de vinte anos entre nós,nos torna próximas em se tratando de hábitos e costumes...minha infância e juventude,foram muito parecidas com as suas,a única diferença foi
que meu pai não quis deixar a filha mais velha estudar em Grupo Escolar,pois alí o ensino era misto e ele achava que meninas tinham que estudar com meninas.
Estudei em colégio de freiras,até concluir o Normal e,depois me casei e fui cuidar
dos filhos.Esta foi também outra diferença,só fui fazer a Faculdade muitos anos depois,com os filhos já criados.
Mas,todos os fatos,narrados magistralmente por você,me levaram ao passado e à conclusão de que,esta revolução de costumes começou há 30 anos,mais ou menos.
Bem,querida amiga,você sempre me faz falar
mais do que deveria,mas seus textos tem este poder,são instigantes e nos fazem viajar.
Bjssssssss e um final de tarde muito feliz
Leninha

Anônimo postou o comentário número:

Renata
Se eu conseguir colar, vou fazer um blog igualzinho ao seu pulando algumas coisas e lembrando de outras pois tenho quase 53 anos. Vou fazer dia 6 de novembro e lembro de tudo o que disse.
Posso copiar e dizer que plagiei você?
com carinho sua amiga Monica
Obrigada por esta bela recordação.
Hoje o computador esta de mal de mim

ARTE DO TONINHO postou o comentário número:

OI RENATA BOA NOITE LEGAL AS RECORDAÇOES NE EU LEMBRO SEMPRE DAS ALPARGATAS RODA AS FAMOSAS ENXUGA POSSA EU SO USAVA PRA IR AMISSA OU NO MEDICO ...BRIGADOA PELA VIZITA FICA COM DEUS

Rô... postou o comentário número:

oi Re,

nossa quanta lembrança boa,
sabe uma coisa que não esqueço,
é das saias no colégio de freiras,
só podiam ter 5cm a cima do joelho,
elas ficavam com a régua na porta medindo,
era inacreditável,
nós soltávamos o alfinete dos ombros na entrada para a tal medição,
e depois já dentro do colégio,
corríamos ao banheiro para encurtar uma a da outra,
adorava correr esse perigo...
ler você é sempre um delicioso presente para o coração...

beijinhos

Helena Compagno postou o comentário número:

Ai Renata, seu texto me fez mergulhar nos anos dourados...
Lindo.
Beijos

Turquezza postou o comentário número:

Ah Renata que saudades de muitas coisas que você citou! Colégio de freiras: a gente enrolava a saia quando saia para ficar bem curta, doce de abóbora em forma de coração (aprendi a fazer !!!!) e tinha de batata doce também. Tanta coisa boa que curtimos até hoje. Será que essa "garotada" vai curtir tanto como nós?
Espero que sim, a gente era feliz e não sabia rsrsrs
Beijos.

Carolina Lima postou o comentário número:

Renata,
mesmo tendo quase metade dos seus 50 anos (faltam menos de 3 meses para a metade ser exata), fico tão feliz em saber que vivi tudo na fase certa.
As vezes encontro pessoas que se espantam em saber que até depois dos 15 anos eu brincava de queimada na rua e que o meu primeiro namorado foi com 22, quase 23 anos.
Vergonha? De maneira nenhuma. Eu aproveitei cada momento da minha vida e sinto muita saudades do passado!
E foi bom relembrar quando, na 4ª série, a tia Rosana me autorizou a escrever de caneta! UAU! Só os mais organizados tinham autorização e isso para mim foi uma conquista inexplicável!

Um grande abraço,
Carol :)
http://www.umblogsimples.com

Lucia Costa Siqueira postou o comentário número:

Oi
Querida
Adoro vc
Li a minha história com {H ou sem}
Vc é demais,uma pessoa linda.....
Agradeço sua gentil vst
Bom fim de semana
Bjs.

Nilda postou o comentário número:

***OI AMIGA, LENDO AS SUAS RECORDAÇÕES DE SUA INFANCIA, ME DEU UMA SAUDADE DA MINHA INFANCIA,DEPOIS A ADOLECENCIA QUE FOI MUITO BOA MESMO TENDO UM PAI RIGÍDO,QUE QUASE NÃO DEIXAVA AGENTE SAIR MAS ERA BOM DE MAIS.
TEMPOS BONS QUE NÃO VOLTAM MAIS.

AMIGA TE CONVIDO A CONHECER O OUTRO MEU NOVO BLOG ESSE É DE PONTO CRUZ, VOU TE DEIXAR O ENDEREÇO.
meusonhopontocruz.blogspot.com/
VENHA VER JÁ POSTEI ALGO EM PONTO CRUZ
**BEIJÃO**
**NILDA MOURA**

Leninha postou o comentário número:

Oi amiga Renata!!!Boa tarde!E não é que está mesmo uma tarde muito boa,com céu azul e tudo mais:passarinhos cantando alegremente,maritacas gritando assanhadamente,canários e sabiás num coral afinadíssimo e,ao longe um bem te vi avisando que nos viu e ninguém tasca.Estou hoje entusiasmada e você poderá descobrir o porquê lá no Sonhos e Encantos...
Bjssssss,minha querida e um final de domingo gostoso e feliz para você e todos os seus,
Leninha

Anônimo postou o comentário número:

renata
irei dar um pulo até lá em casa.
Voltei em lguns dias.
Obrigada pelo carinhoso e agradavel comentario.
Vou copiar o que quero escrever. Até logo !
com carinho Monica

sirlenesouza pedagoga postou o comentário número:

Que maravilha esse post! Vivi tudo, do mesmo jeito! Que saudade destes tempos dourados! Um beijo! Sirlene

Leninha postou o comentário número:

Bom Dia,querida Renata!!!
UM bom trabalho prá você,nesta manhã tão linda,com céu azul e ameno clima...obrigadíssima pelo delicioso comentário...olha,Rê,precisamos fazer o pai violeiro voltar a tocar,são estas coisas que trazem de volta o brilho da vida.
Belas toadas e canções e modinhas de viola para vc tbém.
Bjssssss e o desejo de uma feliz semana
para você,
Leninha

Lilian Magnani Silva postou o comentário número:

Renata querida!!!
Li emocionada teu texto... Brinco com meu filho adolescente que ele não teve infância - mas não por culpa minha, mas pelo "andar" dos tempos.
Falo com pezar pque meus filhos nem sonham como é isso tudo... pois nossas lembranças serão inexplicavelmente sempre atuais vista pela saudade.
Um beijo grande e obrigada por dividir tuas emoções tão nossas também!!!
Beijos e uma boa semana.
Lilian.
http://lilianmagnanisilva.blogspot.com/

Leninha postou o comentário número:

Oi querida!!!Boa tarde!Passando rapidinho prá te deixar um abraço,pois tenho que correr hoje...tennho pressa,tenho muita pressa(entrei no livro Alice no País das Maravilhas)Mas meus motivos são bem prosaicos:a maquina de lavar cheia,pq amanhã é dia de passadeira.
Dei uma subidinha rápida,pois daqui,pelo barulho da caixa d"água,sei qdo a máquina pára.
Bjsssss,amiga e bom trabalho,
Leninha

Lucinha postou o comentário número:

Renata,

Menina, que coisa mais bacana essas lembranças!
Muita coisa que você viveu eu vivi também. Temos a mesma faixa de idade. Que tempo maravilhoso foi esse.
Só não me lembro se plantei abacate e fiquei desenterrando.kkk Mas não duvido. Rs
Gostei muito do seu relato.

Eu não me preocucp com sua ausência nos comentários, sei que quando dá você vai lá me visitar. Eu também me enrolei um pouco, pois fiquei uma semana sem blogar, por conta de uma gripe forte.
Beijos

Conceição postou o comentário número:

Olá amiga,

Passei para ver as novidades e te deixar um beijinho.
São

Elizandra postou o comentário número:

Renata amei a visitinha e seu blog continua lindo e obrigada pela linda mensagem

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