Onde anda a vida privada?

Vida privada é algo em extinção. Não me venham culpar as tais redes sociais, a coisa é muito mais complicada. Muitas pessoas perderam o senso de limites em suas próprias vidas e se respeitam menos que aos outros. Essa falta de discrição individual começa a afetar o coletivo e talvez em breve as casas nem precisem mais ter paredes, passaremos a viver em praça pública.
Muitos se surpreenderam recentemente com a construção de um edifício público em São Paulo cujas paredes dos banheiros eram de vidro. Os idealizadores do projeto devem ter interpretado o objetivo da construção ao pé da letra, ou seja , seria de um prédio público. Só pode ser isso. Ou será que como não há mais privacidade na vida das pessoas, seria normal e passaria despercebido de todos os tais banheiros? Não sei.
Aqui onde moro fiquei espantada dia desses ao ouvir uma conversa de um vizinho com uma pessoa pelo celular. Ele estava na garagem como se estivesse dentro de sua casa conversando da maneira mais natural possível, passando todos os seus dados para alguém do outro lado da linha. Hoje se tivesse interesse poderia fazer um relatório com sua profissão, horário e local de trabalho, e-mail, número de celular e telefone fixo, nome de esposa e filhos, só para início de conversa. Dois dias depois, não satisfeito com a exposição resolveu conversar com a esposa assunto que só diz respeito aos dois, bem na direção de minha janela que é bem alta, mas não é a prova de som.
Raramente tenho ido a alguma agência bancária e agora, pelo menos aqui neste Estado é proibido o uso de aparelho celular dentro das agências. Faz-me rir quem acredita que a lei é cumprida, então em pouquíssimo tempo que estive dentro de uma dessas agências, ouvi de tudo sendo conversado ao telefone ou não. Desde cardápio para o almoço, críticas a atendimento feito por um determinado médico de renome na cidade, discussão entre mãe e filha (para não dizer que o nível era baixo, prefiro dizer que foi bem razante), aconselhamento para uso da Lei Maria da Penha, cantada descarada de velho babão... Eu fui me sentindo em uma sala de espetáculo, tentando juntar os fragmentos dos textos e transforma-los na peça teatral que supostamente estaria assistindo...
É claro que tem ainda aqueles que curtem uma exposição da figura no facebook de uma maneira tão absurda que assusta. Não sei mais o que se conversa entre quatro paredes ( que se pronunciem os políticos e seus associados, pois até isso parece inevitavelmente sempre estar sendo gravado por alguém ).
Devo estar mesmo super ultrapassada, porém confesso ainda ter reservas com relação a falar ou ouvir determinados assuntos que não pensem serem temas tabus, mas apenas coisas que são minhas , de um mundo onde me dou o direito de viajar em meu pensamento sem testemunhas ou apenas dividi-los com "passageiros" que estão sentados ao meu lado, bem juntinhos mesmo. Sei que parece maluquice ainda existir no meu caso, um mundo particular. Talvez resquício de uma criação com origem no século passado, vai saber...
Com o tempo sei que a palavra privacidade vai perdendo sua força e logo estará na galeria do português em desuso e eu cada vez conseguindo mais distância deste mundo "evoluído".  Tem muita coisa que ao ouvir me comporto como as paredes que ouvem e não comentam... Mas que é duro ouvir coisas absurdas sobre a miséria humana, isso é. Já experimentaram uma fila de supermercado? Sala de espera de consultório médico? Repartição pública (a gente esperando atendimento e a conversa interna rolando solta...)? Não sei porque tanta preocupação com roupas, pois a turma ando curtindo mesmo é expor tudo que tem, por dentro e por fora. Posso afirmar que muitas vezes esse "por dentro" está feio de se ver... Tenho visto e ouvido coisas que precisariam passar por uma "lipo" daquelas...


10 comentários:

Rô... postou o comentário número:

oi Re,

concordo com você,
ontem mesmo estava na fila do supermercado,
e logo atras de mim um rapaz ao celular,conversando com a noiva,
meu Deus,
de tudo eu ouvi,
até ele se desculpar dizendo que seria incapaz de bater nela,
eu horrorizada com o que estava escutando sem me dizer respeito,comecei a querer mudar de fila,
mas nas outras dos dois lados,outros falavam ao celular e eu imaginando qual seria o assunto que eu não gostaria de participar também...

beijinhos

Lourdinha Vilela postou o comentário número:

Oi Renata, Bom dia.

Gostei muito do seu texto, penso exatamente assim~, Esta exposição explícita de gestos, palavras,e da própria vida, vai acabando também com outra palavra. Personalidade. Tudo é tão igual,todos copiando todos, o pior é que estão copiando o que há de ruim. Como diz minha mãe,-Não se tem mais recato.
Gostei muito de vir aqui
Abraço.

casa de professora postou o comentário número:

BOM DIA RENATA, REALMENTE CONCORDO COM VOCÊ, VIAJO SEMPRE A TRABALHO E OUTRO DIA FIQUEI SABENDO ATÉ ONDE A SENHORA GUARDA A CHAVE (NO VASO PENDURADO AO LADO DA PORTA DE ENTRADA), E DEPOIS NÃO SABEM COMO SÃO ASSALTADAS...VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ NO MUNDO, TB GOSTO DE PRIVACIDADE, EMBORA TENHA FACEBOOK RS... BJS!P.S. MAS É PRIVADO!

Lúcia Bezerra de Paiva postou o comentário número:

Nem a "privada", se chama mais assim: passou a "vaso" é mais bonito!Então, privacidade, já era, Guidinha, agora "liberdade", é mais bonito!
Você tem razão: é terrível o escancaro das pessoas, ao falar no celular, nos lugares públicos. Educação que era bom, não é mais, para a grande maioria.
Eu, continuo com a minha, à moda antiga!
Beijos.

P.S. Digitei o meu e-mail aí do lado. Acontece que o e-mail meu ORIGINAL, do blog, foi bloqueado, não me pergunte a razão que eu não sei. Mando o meu particular: lubpaiva@gmail.com.

Mônica postou o comentário número:

renata
Eu concordo com tudo o que disse. Minha irma me pediu pra ter muita cautala no que digo aqui, Pois eu colocava fotos de nós todas e minhas cunhadas nao gostaram. Falava dos passeios e teve gente que adorou mas quando me reconheceram numa cidade que eu nem estava acostumada a ir me assustei.
Diminui bem as postagens e retirei as fotos, e os comentarios que eu adoro priorizei alguns. Outros desapareçeram nao sei porque. Sinto falta. mas vou ficar assim.
Pois nao podemos mesmo perder a privacidade nem da-la de graça .
Mas tenho sorte, todos os meus amigos e amigas me disseram que sentem minha falta.
Mas assim esta bem. Queria ter um milhao de amigos visiveis pois invisiveis nao poderia.
um grande abraço de sua amiga Monica

Sílvia postou o comentário número:

Oi Renata.
maravilhoso texto onde você relata o dia a dia das pessoas com a falta de privacidade ou discrição, sempre fui discreta e certas coisas ainda me surpreendem, moro em cidade de interior e me dou o privilégio de morar em uma casa ampla, onde os assuntos familiares são discutidos de forma discreta, mas já tive vizinhos que eram um horror. mas é a vida, cada dia torna-se um circo para alguns.
Bjs.
Silvia.

maristela postou o comentário número:

É de arrepiar né? Coincidentemente fiz um post sobre algo parecido (no caso não só conversas, mas toda essa parafernália tecnológica) no meu blog. Para quem passou dos 40 anos, assusta...
Bjs

FAZENDO ARTE postou o comentário número:

Parabens....
bjs Leila
www.fazendoarteleriente.blogspot.com

Jo Turqueza postou o comentário número:

Tem presentinho no meu Blog para você: Selo Literário.
Beijos.

Helena Compagno postou o comentário número:

Renata, estava com saudade de suas postagens tão divertidas e bem escritas.
Vida privada? foi para a privada!
Já tive a ilusão de que morar em casa tem mais privacidade. Depende da casa, do lugar, dos vizinhos. Depende da educação, como você mesma disse. Morar em casa tem suas vantagens (agora acho que não tem nenhuma)e desvantagens. Em casa, que fica fora de condomínio fechado, você tem o inconveniente de ter que atender a campanhia, gente que passa na rua vendendo coisas e os "crentes" que batem à sua porta no domingo logo cedo (ah, ninguém merece, né?) Em apartamento você tem o inconveniente do vizinho fazer xixi bem em cima da sua cabeça. Agora moro no último andar,mas continuo ouvindo barulhos que vem de baixo! Já me acostumei. Na vida acostumamos com tudo, não é?
Beijos

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